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SINTONIZE O CNU PELOS CANAIS 11 DA NET E 71 DA TVA
 
 
Revista Ensino Superior (Edição 91)
Elas ainda não são utilizadas em todo o seu potencial
TVs UNIVERSITÁRIAS
Considerada ferramenta fundamental e eficiente para qualquer processo educativo, a televisão demorou para ser levada a sério na academia. As universidades levaram quase 20 anos para admitir que a televisão podia ser objeto da pesquisa acadêmica (a TV surgiu no país em 1950 e apenas no final dos anos 1960 apareceram os primeiros estudos sobre ela, no campo da sociologia e da comunicação), caminha para a compreensão do fenômeno televisual e se põe, ela mesma, a fazer TV. Outro passo que se seguiu lento foi a criação das TVs universitárias. A primeira TV educativa, por exemplo, surgiu ligada à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife, e foi a primeira experiência do Brasil nesse sentido. Ela foi criada em 1968, com o objetivo de promover a educação, em um momento em que o analfabetismo atingia mais da metade da população brasileira e 50% dos habitantes encontravam-se em idade escolar. Em seguida, pelo menos outras 12 instituições receberam outorgas de canais educativos abertos e vêm operando as estações, com suporte de programação das duas grandes emissoras educativas do país, que têm maior capacidade de produção: a TV Cultura de São Paulo, da Fundação Padre Anchieta - Centro Paulista de Rádio e Televisão Educativa, e a TV Educativa do Rio de Janeiro, da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto.

Apesar disso, não é possível dizer que a TV universitária começou no Brasil há cerca de 38 anos porque as emissoras operadas por IES (instituições de ensino superior) no campo da radiodifusão (TV aberta, nas freqüências VHF ou UHF), não oferecem ao público telespectador uma programação segmentada, especificamente universitária. A vinculação dessas estações com as IES é administrativa e financeira, até porque, dadas as suas limitações de produção, a maior parte de seu conteúdo vem de fora, "importado" da Rede Pública de Televisão, que tem sua programação baseada nas produções da TV Cultura de São Paulo e da TVE-RJ. As primeiras instituições de ensino superior a veicular programas sob o conceito específico de televisão universitária foram a Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul (que opera a TV Campus), e a Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP, que hoje compartilha o Canal Universitário com outras oito universidades paulistanas) a partir de 1995, com a promulgação da lei federal 8977, conhecida como Lei da TV a Cabo. Em seu artigo 23, institui os chamados "Canais Básicos de Utilização Gratuita", que as operadoras são obrigadas a disponibilizar, sem custos para os assinantes ou para os provedores de conteúdo dos canais. Entre eles, especifica "um canal universitário, reservado para o uso compartilhado entre as universidades localizadas no município ou municípios da área de prestação do serviço".

"Um canal de TV assegurado por lei, e gratuito, mostrou-se um estímulo poderoso, motivando inúmeras IES a se aventurarem no campo da comunicação audiovisual", afirma Gabriel Priolli, ex-diretor da TV PUC e diretor da Associação Brasileira da Televisão Universitária (ABTU), fundada em 2000 para congregar as IES que produzem televisão educativa e cultural, ajudando-as a superar dificuldades de organização e programação, além de orientar administrativa, técnica e juridicamente e de representá-las junto aos organismos do Estado.

Até 1995, existiam apenas 19% das TVs Universitárias que estão em operação hoje no Brasil. Após a aprovação da Lei, foi criada a grande maioria das TVs universitárias brasileiras (81%). Hoje são 51 Canais Universitários no Brasil. Alguns são compartilhados por mais de uma IES, por isso pode-se afirmar que hoje existem 107 instituições que produzem TV universitária no Brasil.

Na definição da ABTU a TV universitária é produzida no âmbito das instituições ou por sua orientação, em qualquer sistema técnico ou em qualquer canal de difusão, independente da natureza de sua propriedade. É feita com a participação de estudantes, professores e funcionários e tem uma programação eclética e diversificada, sem restrições ao entretenimento, salvo aquelas impostas pela qualidade estética e a boa ética.

Fazer uma televisão nesses moldes tem sido um dos maiores desafios da ABTU. "A grande maioria das TVs universitárias partem de projetos oriundos dos cursos de comunicação e tem um formato claramente laboratorial. O que elas fazem é tornar pública essa produção. Outros projetos são os institucionais, ligados à reitoria, aqueles que têm perspectivas institucionais, como posicionar positivamente a IES. Ambas são visões empobrecedoras.", diz Priolli, que completa: "Pode se fazer uma produção educativa, mas as escolas de comunicação raramente atingem esse propósito. É preciso estimular os colegas a aprofundar e diversificar seus projetos. Os laboratoriais pecam por um amadorismo natural, visto que é feito por estudantes, e nunca vai se capacitar a ser profissional."

Se bem que para o coordenador de produção da TV Mackenzie e um dos gerentes do Canal Universitário, Daniel Thomaz, o espaço dá visibilidade à universidade, já que nele também se faz a divulgação do nome, da marca e do ensino da instituição, além de ser uma boa vitrine para os alunos. "É a chance de cada universidade mostrar o melhor de si, já que cada uma tem o seu espaço. No caso do Mackenzie, 90% da programação é fruto de trabalho dos alunos", afirma. Ele ainda explica que a TV é custeada internamente e é ligada à reitoria.


Fino coletivo

Em São Paulo, o Canal Universitário (CNU) é um serviço disponibilizado gratuitamente pelas operadoras de TV paga na cabodifusão, para o uso compartilhado das universidades sediadas no município de São Paulo. Atualmente é mantido pela Universidade de São Paulo (USP), Mackenzie, Pontifícia Universidade Católica (PUC), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Paulista (Unip), Universidade Bandeirante (Uniban), Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), Universidade Santo Amaro (Unisa) e a Universidade São Judas Tadeu (USJT), instituições que demonstraram interesse na fase inicial de articulação do canal. Hoje, as instituições que quiserem participar, podem fazê-lo na forma de convênios ou projetos de co-produção com as universidades mantenedoras. Inaugurado em 1997, o canal tem 24 horas de programação diária e oferece programas educativos e culturais com ênfase na produção científica e nas atividades comunitárias das universidades. Cada instituição integrante possui o mesmo tempo na grade de programação (duas horas diárias ou 14 semanais).

Para Cláudio Lemos, coordenador da TV Unisa, a riqueza do canal está justamente na heterogeneidade da programação e das próprias instituições que participam dele. Mas o diretor do Canal Universitário e da TV USP, Pedro Ortiz afirma que é grande o esforço no sentido de transforma-lo em um espaço profissional e não em um espaço de exibição apenas. "As IES que participam do canal são muito diferentes entre si, o que se reflete na hora de construir a grade de programação".

O diretor da ABTU, Gabriel Priolli, afirma que a idéia da programação única é uma meta a ser atingida. Segundo ele é difícil estabelecer esse objetivo em um espaço que é dividido justamente entre instituições de um segmento que é extremamente competitivo entre si. O fato de dividir igualmente os horários, sortear a grade e, dentro da faixa de horário cada faculdade exibe o que quiser, desde que respeite o Código de Ética, fazem com que as instituições se sintam mais seguras em ter uma TV universitária. Para ele, uma grade única é algo que deve ser construído com o tempo, na medida em que as faculdades se sintam seguras de que não perderão seus espaços e, para isso, tornem sua programação mais profissional e menos comercial, no sentido de divulgar a própria instituição, ao invés de promover cultura, educação e informação como uma TV aberta. "Um exemplo que tem dado certo, mas que também vem evoluindo a duras penas é o Rio de Janeiro. Lá, 13 universidades optaram pelo modelo de grade única, em que um diretor escolhido do mercado e não de alguma universidade recebe os programas e monta a grade. Se ele quiser, ele pode rejeitar um programa. Esse é o modelo ideal".

Financiamento

No caso do Canal Universitário, a produção, a programação e a captação de recursos publicitários ficam a cargo de cada uma das universidades, que isoladamente decidem sobre os conteúdos a serem oferecidos ao público, a forma dos programas e o provimento de meios técnicos e financeiros para viabilizá-los.

Sobre a questão financeira, cabe ressaltar que a produção de televisão e, mais ainda, a operação de um canal de transmissão, são atividades de alto custo, se comparadas aos padrões de dispêndio normais das IES. Atualmente quem financia a Televisão Universitária são as próprias IES. As contas são pagas com as dotações orçamentárias (no caso das instituições públicas) ou com as mensalidades pagas pelos estudantes (no caso das privadas). Aproximadamente 73% dos recursos da Televisão Universitária Brasileira vêm, exclusivamente, da Universidade.

No caso das emissoras educativas abertas é apenas dessas fontes que a lei existente determina que venha o dinheiro, ao estabelecer que, para disputarem uma outorga, "as Universidades deverão, comprovadamente, possuir recursos próprios para o empreendimento" (Decreto Lei 236, artigo 14, parágrafo primeiro). Já na legislação da TV a cabo, admite-se que as instituições não podem arcar sozinhas com os enormes custos da produção de televisão. A norma nº 13, baixada pelo Ministério das Comunicações em 1996 e conhecida como Norma do Cabo, abre caminho para o financiamento externo dos canais universitários. Ela estabelece que "é vedada a publicidade comercial nos canais básicos de utilização gratuita, sendo permitida, no entanto, a menção ao patrocínio de programas". Ou seja: a TV universitária pode ser patrocinada. Como não há qualquer outro instrumento legislando sobre quem, como ou quanto pode patrocinar, fica a critério das IES buscarem os parceiros que julgarem convenientes, para auxiliá-las no esforço de prover ao público uma grade de programação de qualidade. "Esses parceiros têm vindo, ainda timidamente, do setor privado. Embuídos muito mais de um espírito de benemerência do que da perspectiva de investidoras em mídia, já que geralmente ela apresenta uma programação fraca, que não encontra ressonância no público. A audiência, por sua vez, não é aferida e as IES não organizam o seu esforço de captação de recursos. Dessa forma, nada há de concreto a oferecer ao mercado publicitário, limitando-se os esforços de venda ao argumento da segmentação precisa do canal universitário e da vantagem de associar marcas comerciais a marcas educacionais de prestígio", afirma Gabriel Priolli, que participou de um estudo sobre a televisão universitária pela ABTU, em parceria com a Unesco.

Na TV USP, o financiamento vem do repasse dos recursos arrecadados com ICMS pelo governo do Estado. O desafio, segundo Pedro Ortiz, está na transformação, em programação de TV, de tudo o que a universidade produz com o dinheiro da sociedade. Além disso, o custo de produção é muito menor do que o de uma TV comercial porque a verba é muito restrita para essa finalidade. No orçamento devem constar a manutenção dos recursos operacionais, novos investimentos e pagamento de funcionários (profissionais e alunos da universidade). Nos últimos anos, os coordenadores têm trabalhado no sentido de levar o canal para outros campus da USP, tornando-a cada vez mais conhecida dentro da própria comunidade da instituição (alunos e funcionários) e, em segundo plano, para o público em geral. Para isso, há uma tentativa para fazer parcerias com outros canais, como TV Assembléia e TV Cultura e há dois anos é feita a digitalização da programação, disponibilizando-a também para todos aqueles que têm acesso à internet.

Já a TV PUC, criada em 2003, foi a primeira produtora universitária do país a transmitir regularmente programas na TV a cabo, graças a um convênio com a operadora NET, que distribui os seus produtos desde 1995. Foi também a primeira a transmitir via satélite, com a série mensal de debates de filosofia e cultura "Diálogos Impertinentes", promovida em conjunto com a Folha de S.Paulo e o SESC-SP. Todo o custo da TV é financiado com terceirização e parcerias. "Hoje ela movimenta um volume de recursos muito maior do que o de muitas faculdades juntas", afirma o ex-diretor da TV, Gabriel Priolli.

Para Silvia Cavale, diretora da TV São Judas, é muito difícil uma faculdade sustentar uma TV sozinha e partiu disso a idéia de se fazer um Canal Universitário em que cada instituição tivesse seu espaço. Ela concorda que o canal tem como objetivos atender à comunidade (no caso, os públicos que possuem TV a cabo pertencem às classes A, B e uma fatia menor da C) e, internamente, serve de laboratório experimental e produção para os alunos. "Não acho que seja um investimento caro, uma vez que a universidade já faz muitas coisas na área de experimentação. Nesse sentido, é preciso procurar parcerias que se interessem por esse tipo de produção", afirma Silvia Cavale.

Na TV universitária, poucas pesquisas de aferição de audiência são feitas, ou seja, as instituições não sabem quem são seu público alvo e, justamente por isso, há uma grande dificuldade de posicionamento e definição de estratégias de programação.


Objetivos e custos

Um problema maior e anterior a questão financeira, segundo Priolli, é a precariedade institucional. Para ele, as IES ainda não sabem qual a dimensão da utilidade de uma tv, da sua responsabilidade social, da questão da difusão do trabalho próprio e do movimento econômico que ela gera. "O projeto de TV não foi suficientemente discutido e ele acaba se tornando um corpo estranho dentro da universidade. Se ela investe na TV, ela não discute, mesmo aquelas instituições que têm seus objetivos claros. Além disso, as reitorias, no geral, são muito omissas. Só se lembram das TVs quando precisam fazer publicidade da instituição ou quando chegam as contas".

Outro problema da produção é a escala de custos. Mexe com um volume de dinheiro que assusta a universidade. Qualquer produção modesta custa, fácil, 10 mil reais. Um documentário de qualidade chega a custar 100 mil reais. Além dos custos com jornalista, radialista, maquiador, cabeleireiro, ator, técnico, vários profissionais em um lugar que está acostumado com apenas duas categorias: servidores de educação e professores".

Em linhas gerais, a televisão universitária ainda encontra diversos problemas, mas que vêm merecendo o debate intenso das IES que se empenham na produção audiovisual, e que já encontram algumas soluções, ou, no mínimo, tentativas de equacionamento. Conforme mostra o estudo feito pela ABTU em parceria com a Unesco, no plano conceitual, amadurece progressivamente a idéia de que a Televisão Universitária é muito mais do que uma televisão estudantil. "Ela é a face da universidade, a expressão audiovisual de sua comunidade, de suas atividades e de seus projetos", explica Priolli. Institucionalmente, as universidades experimentam diversas formas de vinculação dos núcleos de TV aos organismos universitários e vão buscando soluções que ampliem a autonomia desses núcleos, em favor de seu desenvolvimento mais rápido e em benefício do público, que demanda programas de qualidade. Financeiramente, há muito a fazer para que a captação de patrocínios se torne uma prática rotineira e que o financiamento externo possa substituir o financiamento próprio das IES. "A profissionalização dessa área é indispensável, representa em si mesma um enorme desafio, porque terá de confrontar e superar preconceitos históricos da universidade nas suas relações com o mercado. Será necessário convencer a comunidade acadêmica que vender publicidade não significa, necessariamente, mercantilização da educação ou abastardamento da sua missão formadora da cidadania". Segundo Priolli, para um segmento que está apenas em seu 11º ano de vida, em contraste com os 38 anos da televisão educativa e os 56 da televisão comercial, o que foi feito até agora é um conjunto nada desprezível de iniciativas relevantes, mas é pouco perto do que a TV universitária ainda pode dar ao Brasil.
 
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